quinta-feira, 24 de maio de 2012

O QUE É SER IGNORANTE?

 Outro dia li em uma postagem do facebook a seguinte frase:” LIDAR COM A IGNORÂNCIA É O PIOR CASTIGO QUE ALGUÉM PODE MERECER”. Essa frase de alguma maneira mexeu comigo, fiquei me perguntando: o que é ser ignorante? Comecei a levantar todas as hipóteses que circulam acerca desse tema e identifiquei que alguns compreendem ignorância como sendo uma pessoa com pouca instrução, que pouco ou nada conhece dos conteúdos culturais e históricos valorizados pelo mundo acadêmico, é uma pessoa que escreve precariamente que muitas vezes não sabe distinguir quando deve usar  S ou Z na escrita de uma determinada palavra, geralmente o pessoal do interior “os da roça” e os da periferia “os favelados” entram nessa classificação; identifiquei também que alguns rotulam como ignorante uma pessoa de pouca classe que, ao meu ver acho a classificação mais interessante, é a pessoa  que fala alto que xinga o funcionário público (ou privado) ou qualquer outra pessoa quando sente que seus direitos estão sendo infringidos ou simplesmente se sentem ofendidas, essas pessoas também são denominadas “barraqueiras” , há também  uma terceira denominação, são as pessoas que dizem tudo clara e diretamente doa a quem doer, são os “super sinceros” ou “insensíveis”.
 Depois desse levantamento parei, fiquei estarrecida quando me dei conta de que me encaixava em todas as classificações das quais tinha acabado de levantar. Diante da primeira sou ignorante, primeiramente, porque resido no interior desde que nasci, então, literalmente sou da roça, ah, mas apesar de viver no interior estudei um pouquinho, mas isso não elimina minha ignorância diante da primeira classificação, pois, apesar do estudo, tenho claro que existem pessoas com grau de conhecimento muito maior do que o meu, fato que me faz permanecer ignorante, tem outro coisa que me impossibilita de deixar a categoria, eu até sei que CASA se escreve com  S porque o S no meio de duas vogais tem som de Z, mas dias atrás quando tive que escrever QUETZAL fui pega, tive que recorrer ao “pais dos burros”, ou seja, não domino todas as palavras do dicionário. No que diz respeito a segunda categoria sinto-me incluída porque já perdi a conta de quantas vezes tive que “ser barraqueira” para que meus direitos fossem garantidos, a exatos 8 dias atrás sofri uma queda, na verdade foi um tombão, imediatamente senti que meu braço tinha sido afetado, fui ao Pronto Atendimento a fim de verificar se havia quebrado ou não (mas a dor era muito forte), qual não foi minha surpresa quando fui chamada para ser atendida, a enfermeira queria tirar minha pressão arterial e minha temperatura para analisar qual o grau de necessidade para eu ser atendida por um médico, mesmo eu estando com o braço da grossura da coxa da minha perna, não teve jeito, tive que fazer um barraquinho básico para ser atendida por um ortopedista, só por esta eu já me encaixo na segunda classificação de ignorância, isso porque eu nem mencionei os outros casos. Na terceira classificação que identifiquei não tenho como fugir, sou daquelas que diz  claramente o que deve ser dito. Uma vez fui questionada por alguns alunos porque eu não lidava com os erros deles com mais “delicadeza” , ao invés de dizer “vocês não estão bem, precisam se dedicar mais” eu deveria falar “pessoal sei que vocês são bons alunos, sei que vocês trabalham estão cansados, mas vocês precisam se dedicar mais”, fui clara novamente, o primeiro passo para melhorarmos em algo que necessitamos melhorar é ter a real noção de nossas limitações e saber lidar com elas a fim de superá-las, quando se diz a alguém que o que ela fez está bom, MAS, poderia ficar melhor, na verdade queremos dizer que não está bom, mas esta informação está implícita, alguns compreendem outros não, por isso gosto de ser explícita, ah, deixa eu abrir um parênteses, ouvir que o que se faz ou fez não está bom não é nada agradável, sei disso pois tive um orientador “super sincero”, mas graças a sinceridade dura dele cresci bastante, por esse motivo aí estou inserida na terceira classificação de ignorância.
Então sou uma ignorante... nossa, devo me sentir mal por esta constatação? Acho que sim, mas porque não me sinto?
Não me sinto mal porque tenho clareza de que o conhecimento é algo extremamente amplo e diversificado, que é simplesmente impossível dominar tudo a nossa volta, mesmo aqueles que não dominam o conhecimento culturalmente valorizado pela sociedade capitalista dominam outro tipo de conhecimento; que mesmo eu tendo um nível escolar elevado sempre haverá alguém com um nível maior do que o meu, sei também, porque sinto na pele, que se eu não gritar, bater a mão na mesa muitas vezes meus direitos como cidadã ou simplesmente como ser vivo, nem digo humano, não são garantidos, tenho claro que muitas vezes as pessoas que ouvem meus gritos não são responsáveis por garantir meu direito, mas são pontes para que eles sejam garantidos, também prefiro dizer a verdade nua e crua a enganar e ridicularizar um semelhante, pois dizer a verdade não é sinônimo de ridicularização, mas de mostrar que outro pode e deve melhorar.
Depois de muito pensar elaborei uma quarta classificação para ignorância, para mim ser ignorante é ter posse de algum conhecimento socialmente valorizado pela sociedade capitalista, sentir-se superior a tudo e a todos por possuí-lo e menosprezar “os da roça”, “os favelados”, “os barraqueiros” e os “super sinceros”, todos esses tipos agem na ignorância, na maioria das vezes devido a circunstâncias impostas  por uma sociedade capitalista cruel e desigual, não há muitas vezes como escapar, mas, aquele que apesar de saber desse fato ignorá-lo e sentir-se superior a  essas pessoas esses sim são ignorantes e, sem dúvidas, lidar com eles é um castigo.

Um comentário:

  1. Não se sinta nem um pouco mal Dona Alexandra, na verdade o que falta na nossa sociedade é essa tal "ignorância", que ao meu ver no seu caso é algo com um nome um pouco diferente, eu chamaria de "indignação". Infelizmente a maioria das pessoas sabem que as coisas não estão bem:a saúde, a educação, a segurança pública, a política e tudo mais, porém isso já está assim faz tanto tempo que parece que isso é o "natural" a todos. Porém as pesquisas de opinião tem mostrado que o brasileiro acha que está tudo melhorando, a aprovação do governo é recorde, isso tudo porque o brasileiro acha que se puder comprar um carro zero em 4 anos está ótimo, ou almoçar fora quase todos os dias é sinal de grandes avanços econômicos. Creio que infelizmente o brasileiro troca o bem estar social com a possibilidade de poder consumir. Se o país está podre pela corrupação já há anos, tanto faz, agora se a novela das 8 estiver boa e campeonato brasileiro estiver bombando, isso sim faz a diferença. Agora pense Dona Alexandra: Quem é mais feliz? O indignado ou quem tá de carro zero financiado?
    Gostei! Fez até rima!
    Fabiano.

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